Eu sou o olhar de sal e solidão, a inquietude e a imensidão, muito para além do meu tamanho. O rosto queimado, a maresia, os pés descalços, eu sou a nostalgia da epopeia lusa de antanho. Sou o povo que do mar se alimenta, por séculos de dor e de tormenta e que o sonha e chora tanta vez. Sou o negro, o amarelo e o vermelho. Todas as cores reunidas num espelho. a História que se escreve em Português. A sereia que encanta, sedutora, marinheiros sedentos da aventura de dar ao mundo, um mundo ainda maior. Os filhos do mar ido e não voltado. Sou outro chão e outro mundo ignorado que dista muito além do Bojador. Sou quem vai, mas sempre volta no caminho, a saudade que se escreve com carinho, povo de um coração nobre e valente. Sou aquela que pisa no sargaço. Que contempla o mundo todo num abraço que é a filha e a mãe de tanta gente… Alma de mar, salgado e às vezes doce. Gente brava, cantada a cada estrofe que persiste e resiste neste mund...
Que somos nós afinal? Capítulo 17 Solidariedade de cura Quando nos deixamos apanhar pela solidão, quando a doença se nos apresenta, o melhor antídoto, sem dúvida alguma, é pensar no outro. Naquele que vive uma solidão maior e uma doença pior que a nossa. Certo é, que o desânimo que nos acompanha nessas horas, nos tira a lucidez e a coragem, pelo que o sentimento é de pena de nós mesmos e nenhuma preocupação com os outros. A constatação, para quem já passou por isso, é que se efetivamente nos conseguirmos desligar um pouco do nosso drama, da autopiedade e olharmos o outro que está numa situação desamparada, provavelmente conseguimos esquecer um pouco a nossa dor, deixando a natureza mais liberta para curar o nosso sofrimento. Fazer bem aos outros, é fazer bem em primeiro lugar a nós mesmos. Quando nos envolvemos nos problemas dos que nos rodeiam, com intuito solidário e nos esquecemos da lamentação, impedimos a nossa mente negativa de interfer...
Vivia no campo, eu era importante. Chegou o progresso, fiquei radiante. E cedo percebi que não era assim pois senti o cárcere em volta de mim. Procurei nos cantos da grande cidade aquilo que homens chamam liberdade. Nas ruas, nas fábricas, nas casas da lei procurei a dita e não a encontrei. Eu fui à procura em outros lugares. Andei por países, corri outros mares. Em tudo encontrei a doce ilusão que o homem é livre na sua prisão. Na busca da fugidia aspiração símbolo da desejada evolução, o ser, esse constante insatisfeito, vai aonde for capaz em seu direito. Aquele que persegue esse ideal esquece muitas vezes e para seu mal que quando se escreveu a explicação construía-se-lhe também a servidão. Mestres da retórica da incerteza ensinam a liberdade sem clareza e induzem nos mortais essa impressão de ser a utopia, uma ilusão. Ser livre é ser mais alto, é ser maior. Arbítrio per...
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